NR -1 Riscos psicossociais no trabalho presencial e remoto
- CCTSP ADV

- Jun 30
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O cenário da saúde ocupacional no Brasil enfrenta uma crise sem precedentes, com o país atingindo, em 2025, o recorde de mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais. Esse avanço, impulsionado por transtornos de ansiedade (166.489 casos) e episódios depressivos (126.608 casos), já representa o segundo maior motivo de licenças previdenciárias, gerando um custo estimado de R$ 3,5 bilhões aos cofres públicos.
Diante dessa realidade, a atualização da NR-1 estabelece que o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) deve, obrigatoriamente, abranger os fatores psicossociais, independentemente da modalidade de trabalho (presencial ou remoto), reconhecendo que o estresse, o assédio e a pressão excessiva impactam diretamente a integridade do trabalhador.
No trabalho presencial, a norma impõe o controle de perigos visíveis e invisíveis através do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). O foco recai sobre a organização do ambiente e as relações interpessoais.Destaca-se a importância de combater metas abusivas, ritmos exaustivos e o assédio moral, que funcionam como gatilhos para o adoecimento mental. Em setores de alta exigência, como o de telemarketing e operadores de check-out, a legislação já prevê medidas como pausas regulares e rodízio de tarefas para mitigar a sobrecarga mental e a monotonia. A atuação da CIPA-A (agora com foco também no assédio) é estratégica nesse ambiente, servindo como ponte para a escuta ativa, identificação de metas abusivas e promovendo uma cultura de prevenção coletiva.
Já no trabalho remoto, verificam-se desafios específicos que, também, devem ser integrados ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Esta modalidade de trabalho, embora tenha surgido como uma solução de flexibilidade e autonomia, consolidou-se também como um terreno fértil para novos desafios à saúde mental. A ausência de limites físicos entre a vida pessoal e a profissional é uma das causas primordiais do esgotamento, frequentemente levando a quadros de ansiedade e à síndrome de burnout. Outras causas que podem levar ao adoecimento mental são identificadas como:
Dificuldade de desconexão - A sensação de estar "sempre disponível" devido ao uso de ferramentas de comunicação instantânea gera uma prontidão cognitiva constante, impedindo o descanso real do sistema nervoso.
Isolamento Social e Solidão - A perda do convívio presencial e das trocas espontâneas com colegas enfraquece a rede de apoio emocional e o sentimento de pertencimento à organização.
Invisibilidade e Microgestão - Por um lado, o trabalhador pode sentir que seus esforços não são vistos (gerando insegurança); por outro, lideranças despreparadas podem exercer um controle excessivo e invasivo para compensar a distância física.
Não se pode olvidar, ainda, da existência de sobrecarga doméstica, especialmente para as mulheres, uma vez que a fusão de papéis no mesmo espaço físico, aumenta a carga mental ao exigir a gestão simultânea de tarefas domésticas e profissionais.
Para mitigar esses efeitos, as empresas devem estabelecer políticas claras de "direito à desconexão", promover canais de acolhimento psicológico virtual e treinar lideranças para identificar sinais de sofrimento em ambientes digitais e também presenciais. O foco deve ser a prevenção coletiva, garantindo que a tecnologia sirva à produtividade sem sacrificar o equilíbrio emocional do trabalhador.
A NR-1 reforça que os riscos psicossociais devem ser avaliados independentemente do local de execução das atividades. Assim, compete às organizações adaptar suas estratégias, oferecendo suporte gerencial e canais de acolhimento digital para evitar que a "invisibilidade" do home office se transforme em adoecimento.
A eficácia da proteção à saúde mental do trabalhador, seja no trabalho remoto ou presencial, exige uma análise que vá além do indivíduo, focando nas condições objetivas do trabalho. É imperativo que as empresas utilizem indicadores como absenteísmo e turnover para dimensionar os riscos psicossociais existentes. Somente através de uma postura preventiva e participativa, que integre a segurança física à saúde mental, será possível reverter o quadro de adoecimento mental que se afigura o país.
Assim, seja no escritório, na fábrica ou no home office, a eficácia da proteção à saúde do trabalhador depende de uma gestão que priorize medidas organizacionais e coletivas sobre soluções individuais. Ignorar esses fatores compromete o bem-estar humano, gera um impacto econômico bilionário em perda de produtividade e custos previdenciários.
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