Catadores de materiais recicláveis no Brasil: trabalho, questão ambiental e valorização social

Brenda Brito Neves
José Dari Krein
Aleix Altimiras Martin
Luciane Storer
Resumo
A crise ambiental contemporânea, marcada pela intensificação dos impactos das atividades humanas sobre os sistemas naturais, tem colocado a gestão de resíduos sólidos no centro do debate sobre sustentabilidade. Os catadores de materiais recicláveis desempenham papel fundamental na coleta, triagem e reinserção de resíduos nas cadeias produtivas, contribuindo para a redução da pressão sobre recursos naturais e para a mitigação de impactos ambientais. Entretanto, apesar da relevância socioambiental dessa atividade, esses trabalhadores permanecem amplamente inseridos em condições de informalidade, baixos rendimentos e limitada proteção social. O presente artigo tem como objetivo discutir o papel dos catadores no contexto da crise ecológica contemporânea, articulando a questão ambiental à questão social do trabalho, bem como caracterizar o perfil desses trabalhadores no Brasil. Argumenta-se que a valorização dos catadores é condição essencial para a construção de estratégias de transição ecológica socialmente justas, exigindo políticas públicas que garantam reconhecimento institucional, proteção social e melhores condições de trabalho para esses trabalhadores.
Palavras-chave: catadores de recicláveis; trabalho; questão ambiental; resíduos sólidos; políticas públicas
Introdução
A era contemporânea tem sido rebatizada como Antropoceno, por conta dos efeitos da intervenção humana no planeta terra (Artaxo, 2014). Em particular, a ação humana tem alterado e inclusive superado a mobilização dos ciclos naturais do sistema terrestre (Garcia et al., 2013; Gruber, 2008; Brunner, 1991).
A dinâmica dessa crise é conhecida como a “Grande Aceleração”, na qual a atividade econômica mundial crescente e de expansão ilimitada que se concretiza no consumo de bens supérfluos (Löwy, 2013; 2025) induz à degradação sistêmica e sistemática das várias dimensões do sistema terrestre (p.ex. sistema climático, biodiversidade, ciclos de nutrientes, etc.) (Steffen et al., 2015).
A raiz do problema ambiental é que o sistema de produção e consumo é linear, também conhecido como sistema Extrair – Produzir - Descartar. Um sistema linear é inerentemente insustentável, pois para produzir mais bens e serviços, mais recursos naturais precisam ser extraídos e transformados em bens e serviços (gerando poluentes na extração e transformação), e os bens descartados também são fonte de poluição. Logo, a reciclagem é uma estratégia central para transitar para sociedades mais sustentáveis e ambientalmente amigáveis.
Os resíduos sólidos municipais têm um papel fundamental na crise ambiental, pois são fonte de diversos impactos ambientais (p.ex. toxicidade humana e ecossistêmica, emissões de gases de efeito estufa, incêndios, degradação do solo, etc.). A coleta e direcionamento dos resíduos para aterros sanitários permite reduzir parcialmente os impactos ambientais associados, porém, essa solução reforça a estrutura linear insustentável da produção e consumo. Portanto, uma gestão desses resíduos para incrementar o nível de reciclagem é uma estratégia chave para mitigar de forma sistêmica a crise ambiental contemporânea.
A gestão adequada dos resíduos constitui um desafio central para a sociedade contemporânea, especialmente diante da urgência climática e da progressiva ruptura dos limites ambientais, pressionados por um modelo de produção e consumo (Löwy, 2013). O aumento contínuo da geração de resíduos, tanto no âmbito doméstico quanto no industrial, impõe a necessidade de soluções estruturais para seu tratamento e destinação final, tornando essa questão um dos eixos fundamentais do debate sobre sustentabilidade.
Associada à questão ambiental, emerge a dimensão social do problema. A cadeia da reciclagem envolve trabalhadores que atuam diretamente na coleta, triagem e processamento de materiais descartados, frequentemente em condições precárias e sob forte estigmatização social. Os catadores de material reciclável desempenham papel essencial na dinâmica e na mitigação de impactos ambientais, tanto de forma direta, coletando materiais que geram impactos ambientais, como de forma indireta, pela diminuição do impacto ambiental da produção de novos bens e serviços graças à reciclagem por eles viabilizada.
O problema que orienta este artigo reside no debate entre a centralidade ambiental do trabalho dos catadores para o meio ambiente e sociedade; e a persistente precarização do trabalho. Diante disso, o objetivo do estudo é situar os catadores de materiais recicláveis a partir de um referencial teórico que articula o trabalho e a questão ambiental, bem como caracterizar, a partir de dados empíricos, quem são esses trabalhadores no Brasil atual. Ademais, é fundamental discutir mecanismos de reconhecimento e valorização dos profissionais que realizam uma atividade essencial para a vida social, os catadores.
A discussão sobre a valorização do trabalho dos catadores também dialoga com os compromissos internacionais estabelecidos pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), destaca-se o ODS 8, que trata da promoção do trabalho decente e do crescimento econômico inclusivo. Entretanto, a problemática abordada neste estudo também se articula com outros objetivos da Agenda 2030, como o ODS 1 (erradicação da pobreza), o ODS 10 (redução das desigualdades), o ODS 11 (cidades e comunidades sustentáveis), o ODS 12 (consumo e produção responsáveis) e o ODS 13 (ação contra a mudança global do clima). A valorização dos catadores de materiais recicláveis, nesse sentido, conecta-se diretamente à construção de estratégias de desenvolvimento que conciliem justiça social, inclusão produtiva e sustentabilidade ambiental.
Metodologicamente, o artigo fundamenta-se na revisão da literatura especializada e na análise de dados secundários provenientes de bases oficiais do governo brasileiro, contemplando informações sobre perfil sociodemográfico, inserção ocupacional, rendimento e proteção social. As principais fontes utilizadas foram a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) e o Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) do Governo Federal.
O texto está organizado em três seções, além desta introdução e conclusão. A primeira discute a relação entre catadores e a questão ambiental no contexto da crise ecológica. A segunda apresenta os catadores em números, explorando suas características sociais e ocupacionais. A terceira desenvolve uma discussão acerca da valorização do trabalho e da necessidade de consolidação de um Estado de direitos para esses trabalhadores. Por fim, a conclusão retoma os principais argumentos e aponta caminhos para o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao setor.
1. Os catadores de material reciclável e a questão ambiental
O trabalho de coleta de materiais recicláveis no Brasil possui uma longa trajetória histórica. Com o acelerado processo de urbanização e a limitada capacidade da economia de gerar empregos formais em quantidade suficiente, parte da população passou a encontrar nos lixões e na coleta de materiais recicláveis uma estratégia de sobrevivência. Como já demonstrava Paulo Renato Souza (1999) nos anos 1970, a existência de um excedente estrutural de força de trabalho constitui uma característica histórica da economia brasileira. Esse excedente, associado à persistência de baixos níveis de proteção social e à elevada informalidade no mercado de trabalho, contribuiu para que parcelas da população em situação de vulnerabilidade recorressem a atividades de baixa remuneração e alta precariedade como forma de obtenção de renda.
Nesse contexto, a coleta de materiais recicláveis passou a desempenhar um papel ambíguo: ao mesmo tempo em que representa uma estratégia de sobrevivência para trabalhadores excluídos das formas mais estruturadas de inserção ocupacional, também se insere em cadeias econômicas mais amplas vinculadas à indústria da reciclagem e ao consumo urbano. Não por acaso, o Brasil tornou-se um dos países que mais reciclam latas de bebidas no mundo, resultado que está relacionado à presença de um mercado de trabalho pouco estruturado e à atuação de catadores que coletam esses materiais para obter renda. Como destaca Vera Telles (2009), trata-se da busca pela “viração”, isto é, de estratégias cotidianas e frequentemente precárias mobilizadas pelos trabalhadores para garantir meios mínimos de sobrevivência diante da escassez de empregos e da fragilidade das redes de proteção social.
Com a crescente importância da agenda ambiental - impulsionada pela comprovação científica da necessidade de reorientar o modelo de desenvolvimento diante da insustentabilidade das atuais formas de produção e consumo - tanto a questão da transição energética quanto a gestão dos resíduos sólidos passaram a ocupar lugar central no debate público. Nesse contexto, torna-se fundamental reconhecer a importância social dos catadores de materiais recicláveis. Em outras palavras, o enfrentamento da crise ambiental não pode ser dissociado da garantia de condições de trabalho dignas, proteção social e direitos para aqueles que desempenham essa atividade. Assim, a construção de estratégias voltadas à sustentabilidade ambiental também exige a valorização do trabalho dos catadores, reconhecendo seu papel essencial nas cadeias de reciclagem e na gestão de resíduos urbanos.
A partir dessa perspectiva, questiona-se a premissa segundo a qual o meio ambiente seria um fator de produção e uma fonte inesgotável de matérias-primas. Tal entendimento consolidou-se como um dos fundamentos históricos do desenvolvimento capitalista e segue presente nos embates contemporâneos acerca das formas de produção de bens e serviços, bem como na persistente dependência dos combustíveis fósseis como base da organização econômica (Chesnais; Serfati, 2003). Desde suas origens, esse modo de produção se estruturou a partir da expropriação de recursos naturais e da transformação da natureza em base material para a acumulação de capital, tratando os recursos ambientais como gratuitos e ilimitados. A crise ambiental contemporânea, que ganha maior visibilidade sobretudo a partir da segunda metade do século XX, resgata um questionamento fundamental: e economia capitalista apresenta um caráter profundamente autodestrutivo em relação às próprias forças que o sustentam, na medida em que se fundamenta na exploração e na expropriação das classes não dominantes e na apropriação sistemática das condições naturais da vida (Fraser, 2024).
A crise ecológica não pode ser compreendida como um fenômeno isolado, mas sim como parte de uma crise estrutural mais ampla da sociedade atual. Como argumenta Fraser (2024), o sistema capitalista depende de uma série de condições não econômicas, como a natureza, o trabalho reprodutivo e as fontes de energia, para garantir sua reprodução. No entanto, essas condições são constantemente degradadas pela forma como se produz os bens e serviços, que têm finalidade a viabilização do processo de acumulação de capital. A crise ambiental, portanto, articula-se com outras dimensões da crise contemporânea, como a crise do trabalho e reprodução social, da institucionalidade vigente, da democracia, dos valores que orientam a vida em sociedade e da própria ciência (Gonçalves, 2012; Fraser, 2024).
Essas dinâmicas revelam que a questão ambiental está profundamente articulada à questão social. A exploração da natureza frequentemente se manifesta simultaneamente como exploração do trabalho e das populações que dependem diretamente dos recursos naturais para sua sobrevivência (Chesnais; Serfati, 2003; Gonçalves, 2012). Dessa forma, as agressões contra o meio ambiente também se configuram como agressões contra os povos e territórios, evidenciando a dupla dominação característica das sociedades capitalistas: a dominação da natureza e a dominação do trabalho.
Os tensionamentos entre o modo de produção capitalista e os limites ecológicos revelam, assim, um momento crucial da sociedade contemporânea, evidenciando que a lógica da expansão ilimitada do capital é incompatível com a finitude dos recursos naturais do planeta. Conforme argumenta Löwy (2013), a crise ecológica e a crise capitalista são inseparáveis, pois ambas decorrem da transformação da natureza e dos seres humanos em mercadorias necessárias à formação do lucro. Trata-se de uma crise mais ampla da própria civilização capitalista moderna, marcada por padrões de consumo intensivos e pela produção massiva de bens muitas vezes socialmente desnecessários.
Essa dinâmica tem como uma de suas consequências diretas a ampliação da geração de resíduos sólidos, tanto no âmbito doméstico quanto no industrial. A chamada sociedade de consumo, estruturada em torno da produção e circulação acelerada de mercadorias, produz volumes cada vez maiores de resíduos, intensificando os desafios relacionados à sua gestão e destinação final. Nesse contexto, a questão dos resíduos torna-se um elemento central do debate ambiental contemporâneo, na medida em que evidencia os limites de um modelo produtivo baseado no descarte contínuo.
Do ponto de vista da ecologia política, essa situação reflete uma crise mais profunda de racionalidade do sistema econômico. Conforme argumenta Leff (2021), o capitalismo responde à crise ambiental tentando incorporar as externalidades ecológicas ao cálculo econômico, transformando problemas ambientais em novas oportunidades de mercado. A difusão de conceitos como “economia verde”, “negócios sustentáveis” ou “crescimento sustentável” frequentemente representa, nesse contexto, uma tentativa de adaptar a lógica de acumulação às novas demandas ambientais sem questionar suas bases estruturais (Novaes, 2025).
Esse processo se manifesta, por exemplo, em mecanismos como os mercados de carbono ou os chamados “direitos de poluir”, que transformam a própria degradação ambiental em objeto de negociação econômica (Chesnais; Serfati, 2003). Tais iniciativas, embora apresentadas como soluções inovadoras, tendem a preservar a lógica mercantil que está na origem da crise ecológica.
Se, por um lado, o tratamento de resíduos cumpre objetivos ambientais relevantes, por outro, sua dimensão social revela-se complexa. Esse processo envolve trabalhadores de diferentes perfis, frequentemente marcados pelo estigma associado à atividade de lidar com materiais que perderam seu valor no circuito econômico formal. Em grande medida, trata-se de indivíduos que encontram na coleta de materiais recicláveis uma das poucas alternativas de inserção no mercado de trabalho, geralmente em condições precárias e com limitada capacidade de composição de renda.
Nesse cenário, os catadores de material reciclável emergem como importantes agentes ambientais, ainda que frequentemente invisibilizados pelas políticas públicas e pelo próprio sistema econômico. Esses trabalhadores desempenham um papel fundamental na coleta seletiva, na triagem e no encaminhamento de resíduos para processos de reciclagem, contribuindo significativamente para a redução do volume de materiais destinados a aterros sanitários e lixões. Em muitos casos, contudo, realizam suas atividades em condições extremamente adversas, em contato direto com resíduos contaminados, submetidos a jornadas exaustivas e a baixos níveis de remuneração.
A vulnerabilidade vivenciada por esses trabalhadores reflete, de maneira expressiva, as contradições de uma sociedade que produz grandes volumes de resíduos, mas que apresenta limitada capacidade de planejamento e gestão quanto ao seu destino final. Trata-se de uma sociedade orientada por objetivos de curto prazo, centrada no consumo e na maximização da acumulação, que transfere para trabalhadores socialmente vulneráveis a responsabilidade de lidar com os efeitos ambientais de seu próprio modelo produtivo.
Assim, enquanto a geração de resíduos é resultado direto da lógica de produção e consumo, a atividade de reciclagem, fundamental para mitigar seus impactos ambientais, é frequentemente realizada por trabalhadores em situação de informalidade e precariedade. Nesse sentido, os catadores ocupam uma posição paradoxal, pois ao mesmo tempo em que desempenham uma função ambiental essencial, permanecem marginalizados nas estruturas econômicas.
Compreender o papel dos catadores no contexto da questão ambiental exige reconhecer que sua atividade não se limita à esfera da gestão de resíduos, mas está profundamente inserida nas dinâmicas estruturais do capitalismo contemporâneo. A existência desses trabalhadores evidencia, simultaneamente, a incapacidade do sistema em administrar os próprios resíduos que produz e a centralidade do trabalho humano na construção de alternativas para enfrentar os desafios ambientais do presente.
2. Os catadores de material reciclável em números
O objetivo desta seção é reunir os dados disponíveis, priorizando aqueles provenientes de órgãos governamentais responsáveis pela produção de estatísticas e que se fundam em metodologias consistentes.
Recentemente, por conta de estudos realizados por Dagnino e Johansen (2017), convencionou-se considerar os catadores a partir do Código de Ocupação (COD), categoria derivada do Código Brasileiro de Ocupações (CBO), o subgrupo principal 96 - Coletores de lixo e outros ocupações elementares, estando contido o subgrupo 961- Coletores de lixo e grupos base 9611 - Coletores de lixo e material reciclável, 9612 - Classificadores de resíduos e 9613 - Varredores e afins.
A partir desses códigos, foi possível obter estimativas sobre esses trabalhadores, principalmente a partir de duas grandes pesquisas: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), de caráter amostral, que coleta informações socioeconômicas de todas as regiões do Brasil e é realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), base administrativa que consolida dados referentes aos vínculos formais de trabalho. Entretanto, cabe destacar que como a RAIS contempla exclusivamente o emprego formal, ocorre uma restrição de sua aplicabilidade neste estudo, considerando o perfil predominantemente informal do público analisado.
Assim, optamos pela utilização da PNADC e de antemão, destacamos as seguintes limitações: i) por se tratar de uma pesquisa domiciliar, não inclui a população em situação de rua, cuja relevância é fundamental para esse recorte; ii) os registros referem-se apenas à ocupação principal autodeclarada pelos trabalhadores, o que pode restringir a análise, considerando que muitos catadores exercem atividades complementares e, em diversos casos, a coleta não corresponde à sua principal fonte de renda; e iii) trata-se de uma atividade frequentemente invisibilizada, o que pode levar o trabalhador a não reconhecê-la como um trabalho.
Com dados referentes ao 4º trimestre de 2025, estimamos que 542.213 pessoas estavam ocupadas como catadores no Brasil. As regiões que mais concentram estes trabalhadores foram o Sudeste com 42%, e o Nordeste com 29%. Em relação à população ocupada total, o Nordeste é aquele que desponta com o maior percentual, onde 0,7% de todos os trabalhadores são catadores, um pouco acima da média nacional de 0,5% (Tabela 1).
Assim, a primeira hipótese levantada consiste na relação entre a realização do ofício diante da necessidade de atender as demandas de tratamento de resíduos dos grandes centros produtivos do Brasil. O Sudeste, a região de maior desenvolvimento nacional, reúne quase metade destes trabalhadores, 228.650 pessoas ocupadas (Tabela 1). Essa possibilidade pode ser relacionada com o tipo de atividades produtivas que estão sendo desenvolvidas nesta região e a demanda por esses serviços justamente por conter grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, com atividades comerciais e industriais em grande escala. Além de expressar de forma mais cristalina a ambiguidade de uma sociedade desigual, marcada por grande riqueza, mas também por um elevado contingente de pessoas empobrecidas. Já no Nordeste, acreditamos que há um aumento da demanda por esses serviços devido ao crescente aumento das cidades.
Tabela 1 - Distribuição dos catadores no Brasil e nas Grandes Regiões (2025)
Brasil e Grandes Regiões | Total de catadores | Distribuição | % de catadores em relação a PO total |
Norte | 41.598 | 8% | 0,5% |
Nordeste | 157.633 | 29% | 0,7% |
Sudeste | 228.650 | 42% | 0,5% |
Centro-Oeste | 43.511 | 8% | 0,5% |
Sul | 70.822 | 13% | 0,4% |
Brasil | 542.213 | 100% | 0,5% |
Fonte: PNADC, 2025. Elaboração própria.
Já o perfil destes trabalhadores é composto 73% por homens, correspondendo a 396.417 ocupados e 27% mulheres, com 145.796 ocupadas. Em relação a raça, 74,8% se declaram negros, sendo 55,8% pardos, seguidos de 19% pretos; e 24,6% brancos. A interseção entre essas variáveis demonstra que 228,620 ocupados como catadores (42,2%) são homens pardos, seguido de 18,1% de homens brancos. Já as mulheres, 13,6% são mulheres pardas, seguidas de 6,5% de mulheres brancas (Tabela 2). Os dados indicam que a atividade está fortemente concentrada entre a população negra, evidenciando a reprodução das desigualdades raciais no mercado de trabalho brasileiro.
Tabela 2 - Distribuição de catadores por sexo, raça e interseção sexo e raça (2025).
Total | % | |
Sexo | ||
Homem | 396.417 | 73% |
Mulher | 145.796 | 27% |
|
| 100% |
|
|
|
Raça | ||
Branca | 133.618 | 24,6% |
Preta | 103.009 | 19,0% |
Amarela | 1.266 | 0,2% |
Parda | 302.423 | 55,8% |
Indígena | 1.898 | 0,4% |
|
| 100% |
|
|
|
Sexo e Raça | ||
Homem Branco | 98.212 | 18,1% |
Homem Preto | 68.546 | 12,6% |
Homem Amarelo | 549 | 0,1% |
Homem Pardo | 228.620 | 42,2% |
Homem Indígena | 490 | 0,1% |
Mulher Branca | 35.406 | 6,5% |
Mulher Preta | 34.463 | 6,4% |
Mulher Amarela | 717 | 0,1% |
Mulher Parda | 73.802 | 13,6% |
Mulher Indígena | 1.408 | 0,3% |
|
| 100% |
Fonte: PNADC, 2025. Elaboração própria.
Já a distribuição da faixa de horas trabalhadas revela um padrão de elevada intensidade laboral entre os trabalhadores analisados. Observa-se que a maioria absoluta (51%), correspondendo a 273.895 pessoas, trabalha entre 40 e 44 horas semanais, faixa que se aproxima da jornada considerada padrão no mercado de trabalho brasileiro. Esse dado indica que grande parte desses trabalhadores está inserida em rotinas de tempo integral. Além disso, 15% da categoria exerce jornadas superiores a 44 horas semanais, sendo 7% entre 45 e 48 horas (35.763 pessoas) e 8% com 49 horas ou mais (44.713 pessoas) (Tabela 3). Esse contingente evidencia a presença de jornadas exaustivas, possivelmente associadas à necessidade de trabalhar muitas horas para ter alguma renda.
Assim como, 25% trabalham entre 15 e 39 horas semanais (134.740 pessoas), enquanto 10% exercem jornadas bastante reduzidas, de até 14 horas (53.102 pessoas) (Tabela 3). Essas faixas podem refletir inserções ocupacionais mais instáveis, intermitentes ou condicionadas à disponibilidade de trabalho.
De forma geral, os dados indicam que, embora haja uma concentração na jornada padrão, existe uma parcela significativa submetida tanto a jornadas extensas quanto a cargas horárias reduzidas, revelando heterogeneidade nas condições de trabalho. Quando articulado aos baixos rendimentos e à elevada informalidade, esse quadro sugere que longas jornadas não necessariamente se traduzem em melhores condições econômicas, reforçando a precarização estrutural da categoria.
Tabela 3 - Faixa de horas trabalhadas pelos Catadores (2025)
Faixa de horas trabalhadas | Total | % |
Até 14 horas | 53.102 | 10% |
15 a 39 horas | 134.740 | 25% |
40 a 44 horas | 273.895 | 51% |
45 a 48 horas | 35.763 | 7% |
49 horas ou mais | 44.713 | 8% |
Fonte: PNADC, 2025. Elaboração própria.
Em relação a posição na ocupação, o Gráfico 1 evidencia que 60% dos catadores encontram-se em situação de informalidade, enquanto apenas 40% possuem inserção formal no mercado de trabalho. Esse resultado confirma a predominância de vínculos precários nessa atividade, indicando que a maioria dos trabalhadores exerce o ofício sem carteira assinada, sem contrato formal ou sem contribuição regular aos sistemas de proteção social. A informalidade majoritária reforça a condição estruturalmente vulnerável da categoria, já observada nos indicadores de renda e contribuição previdenciária. Além disso, o fato de a informalidade atingir três em cada cinco trabalhadores sugere que a atividade de coleta de materiais recicláveis permanece amplamente à margem das formas tradicionais de regulação do trabalho.
Gráfico 1 - Percentual de Catadores por posição na ocupação (2025)
Fonte: PNADC, 2025. Elaboração própria.
Todos esses parâmetros convergem para os resultados observados nos rendimentos médios. Em 2025, o Brasil registrou rendimento médio de R$3.725,20, enquanto, entre os catadores, esse valor foi de R$1.725,70, isto é, uma renda aproximadamente 53% inferior à média nacional (Tabela 4).
Em consonância com esse quadro, observa-se que os rendimentos dos catadores informais, que constituem a maioria nessa categoria, também se situam abaixo da média geral. .Entre os catadores informais, a situação revela-se ainda mais precária. A remuneração média dos empregados sem carteira no setor privado foi de R$1.419,09. Em condição ainda mais crítica estão os catadores que atuam como trabalhadores por conta própria sem registro, cuja remuneração média foi de R$1.044,19, valores de finais de 2025 (Tabela 4).
Os dados evidenciam não apenas a elevada informalidade do grupo, mas também a forte precarização das condições de inserção ocupacional, expressa nos baixos níveis de rendimento.
Tabela 4 - Rendimento médio (2025)
Grupo / Categoria | Rendimento médio (R$) |
Brasil | 3.725,20 |
Catadores | 1.725,70 |
Catadores – posição na ocupação (informais) |
|
Empregado no setor público sem carteira | 1.590,09 |
Empregado no setor privado sem carteira | 1.419,09 |
Conta-própria | 1.044,19 |
Fonte: PNADC, 2025. Elaboração própria.
Em relação à contribuição previdenciária, os catadores, 51% declararam contribuir, enquanto 49% não realizam qualquer contribuição (Gráfico 2). Embora a proporção de contribuintes seja ligeiramente majoritária, o percentual de não contribuintes é elevado e revela uma cobertura previdenciária bastante limitada para esse grupo. Em comparação, no conjunto do Brasil, 67% dos trabalhadores contribuem para a previdência e 33% não contribuem. Isso significa que a taxa de não contribuição entre os catadores é 16 % superior à média nacional, evidenciando maior vulnerabilidade social dessa categoria (Gráfico 2).
Os dados reforçam a estreita relação entre informalidade e baixa proteção previdenciária já observada anteriormente. Ainda que parte dos catadores realize contribuição, possivelmente como contribuintes individuais, a elevada proporção de não contribuintes indica fragilidade no acesso a direitos, principalmente aqueles associados ao trabalho.
Assim, o gráfico confirma que, além dos baixos rendimentos e da elevada informalidade, há também uma inserção precária no sistema de proteção social, aprofundando a condição de vulnerabilidade estrutural desse segmento ocupacional.
Gráfico 2 – Contribuição para previdência (2025)
Fonte: PNADC, 2025. Elaboração própria.
Além da PNADC, outras fontes de dados foram mapeadas para traduzir a situação dos catadores O Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), administrado pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades coletam dados juntos aos prestadores de serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e municípios do Brasil. A coleta é anual e realizada após o fechamento de balanços contábeis das instituições.
Trata-se de uma pesquisa amostral, uma vez que o SNIS conseguiu recolher dados de 5.060 (90,8%) dos 5.570 municípios brasileiros, no ano de 2022. De acordo com o SNIS, em 2022, existiam 1.921 cooperativas e associações de catadores, atuando em 1.372 municípios, com cerca de 39.000 associados (SNIS, 2023).
A distribuição das cooperativas no Brasil apresenta forte concentração nas regiões Sudeste (36,9%) e Sul (31,5%), que, juntas, respondem por quase 70% do total. O Nordeste, com 19,8%, ocupa uma posição intermediária, indicando certo dinamismo do setor, embora em proporções menores que as do Sul e do Sudeste. Em contrapartida, as regiões Norte (4,1%) e Centro-Oeste (7,7%) apresentam participação significativamente reduzida (Tabela 5).
Embora, em números absolutos, o Nordeste seja o segundo maior concentrador de catadores (Tabela 5 e Tabela 1), a região ocupa a terceira posição em número de cooperativas, evidenciando a necessidade de políticas que estimulem a criação e fortalecimento dessas organizações.
Tabela 5 - Quantidade de cooperativas e associações de catadores atuantes nos municípios participantes do SNIS
Macrorregião | Quantidade de cooperativas/associações de catadores | Percentual de entidades (%) | Quantidade de associados | Percentual de associados (%) | Número médio de associados por cooperativa/associação |
Norte | 79 | 4,1 | 1.783 | 4,6 | 22,6 |
Nordeste | 381 | 19,8 | 10.088 | 25,9 | 26,5 |
Sudeste | 709 | 36,9 | 13.079 | 33,5 | 18,4 |
Sul | 605 | 31,5 | 10.802 | 27,7 | 17,9 |
Centro-Oeste | 147 | 7,7 | 3.247 | 8,3 | 22,1 |
Total | 1.921 | 100 | 38.999 | 100 | 20,3 |
Fonte: SNIS, 2023.
No caso do Nordeste, observa-se um número médio de associados por cooperativa de 26,5, valor superior à média nacional (20,3). Esse resultado indica que, em média, as cooperativas nordestinas tendem a concentrar um contingente maior de associados por entidade (Tabela 5).
O Norte e o Centro-Oeste exibem menor participação, tanto em número de cooperativas quanto de associados. No entanto, o número médio de associados por cooperativa nessas regiões (22,6 no Norte e 22,1 no Centro-Oeste) é maior do que o das regiões Sul e Sudeste, sugerindo diferentes perfis em relação a cooperativa e associação (Tabela 5).
No Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) é possível também encontrar dados sobre os catadores. As famílias identificadas como Catadores de Material Reciclável são aquelas em que um ou mais componentes têm como atividade econômica a coleta de material reciclável e reaproveitável como papel, papelão e vidro, materiais ferrosos e não ferrosos.
Os dados nos informam que em 2024, em média, haviam 469.720 famílias cadastradas no CadÚnico que eram catadores de material reciclável. Destas, 80% eram beneficiárias do Programa Bolsa Famílias, ou seja 375.566 famílias. Assim, 419.612 famílias (89%) possuíam renda per capita mensal de até meio salário-mínimo, enquanto apenas 50.108 (11%) possuíam renda per capita mensal acima de meio salário-mínimo (MDS, 2024).
Já o relatório do Governo Federal sobre a população em situação de rua indica que, em 2022, a principal forma de renda desses indivíduos é o trabalho como catador, representando 17% do total (MDHC, 2023). A partir dessa estatística, estima-se que aproximadamente 40.188 pessoas em situação de rua tenham como principal fonte de renda a atividade de coleta de materiais recicláveis.
3. Propostas de valorização do trabalho
A atividade desses trabalhadores insere-se diretamente nas cadeias da economia circular, contribuindo para a redução de resíduos, a reutilização de materiais e a diminuição da pressão sobre os recursos naturais. No entanto, paradoxalmente, essa atividade ambientalmente essencial é realizada, como vimos acima, sob condições de elevada precariedade, baixos rendimentos e limitada proteção social.
Dessa forma, o enfrentamento da crise ambiental coloca o desafio de articular as agendas ambiental e social, reconhecendo que a transição para modelos de desenvolvimento mais sustentáveis também envolve a valorização do trabalho social e ambientalmente necessário. Em outras palavras, uma transição ecológica socialmente justa pressupõe não apenas mudanças tecnológicas e produtivas, mas também a garantia de condições de trabalho dignas, proteção social e direitos para aqueles que desempenham atividades fundamentais para a sustentabilidade, como é o caso dos catadores de materiais recicláveis, em um contexto de elevada informalidade.
Como proposição para lidar com a reciclagem dos resíduos e o reaproveitamento de materiais, os fundamentos da economia circular promovem uma reflexão sobre quais ações poderiam ser desenvolvidas no âmbito de comprometimento dos agentes, principalmente aos encarregados da produção e da comercialização, minimizando o desperdício e estendendo a vida útil dos materiais. Uma das medidas para enfrentar a problemática consiste na responsabilização estendida das empresas pelo ciclo de vida dos produtos. Nesse processo, a inclusão dos catadores é fundamental, uma vez que consiste em força de trabalho especializada na coleta e triagem dos materiais, compartilhando a gestão e gerenciamento dos resíduos.
Na discussão para pensar uma perspectiva é fundamental considerar que há um histórico de organização e ação coletiva destes catadores e catadoras, constituindo organizações nacionais, regionais e locais, que conseguiram colocar na agenda pública, inclusive com conquistas significativas em termos de políticas públicas para viabilizar a coleta, o processamento e a reciclagem de resíduos sólidos. Elas se destacam nas associações e cooperativas, como vimos nos números acima. O trabalho coletivo foi fundamental para ajudar a viabilizar melhores condições de trabalho, rendimento e cidadania. É por meio do cooperativismo e do associativismo que os catadores podem acessar editais públicos, projetos de qualificação, formas de organização coletiva, locais de reciclagem, educação ambiental, renda complementar, etc.
A formalização de parcerias entre cooperativas de catadores e instituições públicas ou privadas possibilita, também, a construção de uma lógica de responsabilidade compartilhada no tratamento dos resíduos. Nesse arranjo, cabe às instituições e empresas assegurar a destinação adequada de seus resíduos, enquanto às cooperativas e associações compete o processamento desse material, reinserindo-o na cadeia produtiva como matéria-prima ou produto transformado. Trata-se, portanto, de diferentes oportunidades de implementação de práticas alinhadas aos princípios da economia circular, apoiadas por arcabouços jurídicos que legitimam essas funções e sustentadas pela atuação direta dos trabalhadores que as desempenham. Nesse sentido, o fortalecimento das cooperativas e associações, aliado ao apoio institucional público e privado, revela-se estratégico para a criação de uma rede de proteção capaz de assegurar melhores condições de trabalho e ampliar a geração de renda (Silva; Sauka, 2023).
Fortalecer as iniciativas de organização coletiva é uma condição central para a busca de soluções mais duradouras tanto no enfrentamento da crise ambiental quanto na melhoria das condições de vida e de trabalho. São sujeitos sociais a ser empoderados para terem a sua voz considerada no debate público.
Para além da valorização da ação e organização coletiva, parte-se da premissa de que o Estado possui papel fundamental na garantia dos direitos trabalhistas e da proteção social dessa população. Assim como, assumir um compromisso de diálogo e de construção de ações conjuntas com as organizações de catadores na perspectiva de constituir uma forma de reconhecimento institucional dessa população historicamente vulnerabilizada. Isto inclui também, a elaboração e execução de políticas públicas, tais como o financiamento de projetos voltados à melhoria das condições de trabalho, abrangendo desde processos de gestão e organização produtiva até a concessão de equipamentos, infraestrutura e programas de capacitação.
Ademais, instituições públicas e privadas podem desempenhar papel relevante ao oferecer assessoria técnica especializada às cooperativas e associações, contribuindo para sua viabilidade econômica e organizacional. Essa assessoria pode incluir apoio à gestão, planejamento produtivo e captação de recursos, fortalecendo as condições materiais e institucionais necessárias para o funcionamento dessas organizações e para a garantia de renda e trabalho digno aos catadores.
O trabalho dos catadores apresenta características particulares dentro da dinâmica econômica. Em certa medida, o trabalho na ponta (da coleta) ainda não se encontra no núcleo central da produção capitalista. Os lucros são auferidos, principalmente, na fase de reutilização do material coletado e reciclado, quando passa a ser gerido por empresas voltadas à acumulação. Ao mesmo tempo, essa atividade desempenha um papel ambiental relevante, na medida em que a coleta, triagem e reaproveitamento de resíduos contribuem para reduzir a extração de novos recursos naturais, evitando processos adicionais de expropriação da natureza.
Diante dessas ambivalências, algumas diretrizes de política pública são apontadas para a melhoria das condições de vida e trabalho dos catadores. Entre elas, destacam-se: (i) o estabelecimento de preços mínimos regulamentados para materiais recicláveis, definidos pelo governo federal ou por governos locais, de modo a evitar que os catadores sejam prejudicados pelo poder de barganha dos compradores; (ii) a criação de mecanismos que incentivem ou obriguem empresas a utilizar matéria-prima reciclada em seus processos produtivos, evitando, por exemplo, a importação de materiais recicláveis mais baratos em detrimento da produção nacional; (iii) a universalização de direitos sociais e trabalhistas para os catadores, independentemente da forma de contribuição previdenciária, garantindo benefícios como férias remuneradas, décimo terceiro salário, licença-maternidade e aposentadoria; (iv) o reconhecimento do papel dos catadores como agentes fundamentais da limpeza urbana, com a remuneração direta por parte do Estado pelos serviços prestados, além da oferta de infraestrutura, equipamentos e condições adequadas para o desenvolvimento do trabalho; (v) a obrigatoriedade de implementação de planos de coleta seletiva e reaproveitamento de resíduos por parte de instituições públicas e privadas, tanto em escala doméstica quanto comercial, com a destinação prioritária desses resíduos para cooperativas e associações de catadores, especialmente nos grandes eventos.
Uma questão central e adicional que se pretende colocar em debate é a necessidade de reconhecer e estruturar o trabalho dos/as catadores/as como ocupações sociais, fundamentais para o enfrentamento dos problemas sociais e ambientais do nosso tempo. Trata-se de pensar mecanismos extra econômicos capazes de gerar ocupações socialmente relevantes, que constituam alternativas de renda e de inserção produtiva para aqueles que se encontram à margem dos circuitos tipicamente capitalistas, ao mesmo tempo em que se vinculam a atividades de reconhecida utilidade social. Nessa perspectiva, mais do que deixar tais atividades submetidas exclusivamente às dinâmicas do mercado, caberia ao poder público estimular, por meio de recursos fiscais e políticas públicas, o desenvolvimento de atividades inseridas em circuitos sociais não mercantilizados, especialmente em áreas como a preservação ambiental (Krein, Manzano e Teixeira, 2025, p. 4).
Considerações finais
A análise evidencia que os catadores de materiais recicláveis ocupam uma posição paradoxal na sociedade contemporânea. Por um lado, desempenham uma função ambiental essencial ao contribuir diretamente para a redução de resíduos e para a viabilização da reciclagem, elemento central em estratégias de transição para modelos produtivos mais sustentáveis e efetivar o tratamento de resíduos sólidos. Por outro, permanecem inseridos em condições marcadas pela informalidade, baixos rendimentos e limitada proteção social.
Os dados apresentados indicam que a atividade de coleta de materiais recicláveis constitui uma forma de inserção ocupacional para centenas de milhares de trabalhadores no Brasil, especialmente entre populações historicamente vulnerabilizadas. A predominância de trabalhadores negros, a elevada informalidade e os baixos níveis de renda revelam a profunda articulação entre desigualdades sociais e a organização do trabalho nesse segmento.
Ao mesmo tempo, a relevância ambiental da atividade evidencia a necessidade de superar a invisibilidade social que historicamente marca esses trabalhadores. O fortalecimento das cooperativas e associações, a ampliação de políticas de coleta seletiva e a construção de mecanismos institucionais que garantam remuneração adequada e direitos trabalhistas e previdenciários pelos serviços prestados constituem caminhos importantes para promover a valorização dessa atividade. A garantia mínima de um salário mínimo, com os direitos trabalhistas e previdenciários a todas as pessoas que desenvolvem essa atividade de grande relevância social e ambiental.
Nesse sentido, políticas públicas que vão na perspectiva de reconhecer os catadores como agentes fundamentais da gestão de resíduos e da sustentabilidade ambiental. Isso implica não apenas a criação de instrumentos de apoio produtivo e organizacional, mas também a garantia de direitos sociais e trabalhistas que assegurem condições dignas de trabalho.
Diante dos desafios impostos pela crise ambiental contemporânea, a valorização do trabalho dos catadores revela-se não apenas uma questão de justiça social, mas também uma condição estratégica para a construção de sociedades ambientalmente sustentáveis e socialmente inclusivas.
Referências
ARTAXO, P.. Uma nova era geológica em nosso planeta: o Antropoceno? Revista USP, n. 103, p. 13–24, 2014.
BRUNNER, P. H. Metabolism of the anthroposphere. Berlin; New York: Springer-Verlag, 1991.
CHESNAIS, F.; SERFATI, C. “Ecologia” e condições físicas de produção social: alguns fios condutores marxistas. Crítica Marxista, Campinas, v. 10, n. 16, p. 39-75, set. 2003.
DAGNINO, R. S; JOHANSEN, I. C. Os catadores no Brasil: características demográficas e socioeconômicas dos coletores de material reciclável, classificadores de resíduos e varredores a partir do censo demográfico de 2010. Economia solidária e políticas públicas. Mercado de trabalho, v. 62, 2017.
FRASER, N.. Capitalismo canibal: como o nosso sistema está devorando a nossa democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. São Paulo: Autonomia Literária, 2024.
GARCIA, G.; CARDOSO, A. A.; SANTOS, O. A. M. Da escassez ao estresse do planeta: um século de mudanças no ciclo do nitrogênio. Química Nova, p. 1468–1476, 2013.
GONÇALVES. C. W. P. O desafio ambiental. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.
GRUBER, N.; GALLOWAY, J. N. An Earth-system perspective of the global nitrogen cycle. Nature, v. 451, n. 7176, p. 293–296, 17 jan. 2008.
IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. PESQUISA NACIONAL POR AMOSTRA DE DOMICÍLIOS CONTÍNUA (PNADC). Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
KREIN, D.; MANZANO, M.; TEIXEIRA, M.. Ocupações sociais e garantia de empregos. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert no Brasil, dez. 2025. (Trabalho para todas as pessoas: é possível?, n. 6).
LEFF, E. Ecologia Política: da desconstrução do capital à territorialização da vida. Campinas - SP: Editora Unicamp, 2021.
LÖWY, M. Crise ecológica, crise capitalista, crise da civilização: a alternativa ecossocialista. Cadernos CRH, v. 26, n. 67, p. 79-86, 2013.
MDHC - MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA. População em situação de rua: diagnóstico com base nos dados e informações disponíveis em registros administrativos e sistemas do Governo Federal. Brasília, DF: Governo Federal, 2023.
MDS - MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO E ASSISTÊNCIA SOCIAL, FAMÍLIA E COMBATE À FOME Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico): base de dados. Brasília, DF: MDS, 2024.
NOVAES, H. T. A educação ambiental anticapitalista: produção destrutiva, trabalho associado e agroecologia. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2025.
SILVA, C. L.; SAUKA, J. E. Desenvolvimento local e possibilidades de uma economia circular a partir de uma cooperativa de catadores de materiais recicláveis. Interações, Campo Grande, v. 25, n. 2, e2524030, abr./jun. 2024.
SNIS - SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO. Diagnóstico temático: manejo de resíduos sólidos urbanos. Brasília, DF: Ministério das Cidades, Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental, 2023.
SOUZA, P. R. C.. Salário e emprego em economias atrasadas. Campinas: UNICAMP/IE, 1999.
STEFFEN, Will et al. The trajectory of the Anthropocene: the great acceleration. The Anthropocene Review, v. 2, n. 1, p. 81–98, 2015.
TELLES, V. S.. Ilegalismos urbanos e a cidade. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 84, p. 153–173, jul. 2009.
_PNG.png)


Comentários